O Espelho da Alma
Um lugar para reflexão.


terça-feira, janeiro 22, 2002  

A Saudade

A sensação de explicar o que se sente é tão sufocante como o próprio sentimento real, engrandecido pela constante presença no nosso espirito. É algo transcendente impossível de deter, de controlar, é sentir e pronto !! Ouvir o nosso interior, encontrar na nossa mente a razão para tal sofrimento alegre, que nos oferece e retira, certezas.
A sensação de saudade é tão grandiosa que me custa transmitir, eu sinto-a aqui presa...como se estivesse bloqueada e não conseguisse sair. Mas é tão voluptuosa que não se quer deixa-la, quer-se apenas adormece-la por instantes, instantes esses recheados de valor e mistério.
Uma saudade verdadeira provém do amor, tão puro como o céu, tão faccioso como uma laranja, tão fastigiado como o cume de uma montanha e tão sincero...como eu.
O valor de uma saudade não é mais do que a transmissão em silêncio do que se sentirá sempre por quem se gosta mas não se tem. Valor? será que hoje em dia isso tem algum valor? A economia, sim! essa tem valor, mesmo para mim é uma condição necessária á realização humana...Quem diz a economia, diz também outra qualquer profissão que nos dias de hoje tome a liderança em cada pessoa, mas é extremamente importante parar e pensar! o sentimento não é fraqueza mas sim coragem de se ser humano.
A saudade? Já ninguém consegue viver de saudades, nem mesmo eu que achava que o mundo não ia além do céu, da água, da amizade e do amor que mesmo sem definição tenho uma certa ideia lógica do que é!
A saudade? mesmo quem a sente, já não a quer dizer, esconde-a por meio de ideias absurdas de extremos e radicalismo. No mundo de hoje já não há frontalidade verdadeira sem medo, com esperança e alegria. Até eu dei comigo a contornar a realidade, a obstrui-la tão profundamente, que cheguei a negar o amor! parece impossível mas eu neguei também a saudade.
A saudade? Esse é o sentimento mais profundo que não pode ser negado por ninguém. Por vezes pergunto-me como é que eu a neguei um dia, porque é que escondo por vezes o mais bonito que tenho, que é a trágica qualidade de uma amante do mundo puro. Por isso é que tento constantemente encontrar a perfeição inexistente, por isso é que me adapto constantemente ao que me rodeia para encontrar a saudade verdadeira e única.
A saudade? Sim essa é evidente em mim, é por me despir neste momento do consumismo do mundo, da grandiosidade das minhas aspirações, é que ela se torna evidente e pura!
É por sentir o coração tão cheio, que quero dar tudo o que tenho em excesso deste amaldiçoado amor pelo mundo, desta alegria desmedida pelo tesouro que cá tenho dentro e que não consigo vender; é por isso que quero trocar esta bondade e esta força por o que existe em excesso no mundo: fraqueza e corrupção.
Sentimentos destes já não são tão fluentes como há muitos anos atrás, não os quero trocar verdadeiramente, mas mesmo que quisesse, não conseguia.
Ninguém quer trocar, pois é mais fácil comprar do que oferecer, é mais fácil esquecer do que sentir uma verdadeira saudade.

Amo o Mundo, os que me amam e os que não.
Detesto a desistência, a fraqueza e a infidelidade
Amo o carinho, calma mas adoro uma verdadeira paixão
Sou amada pelos que não amo e de amor só conheço a bondade
Só não me peçam para dizer a única coisa que sei esconder: A saudade.


por Inês S. Rodrigues

posted by Miguel | 7:25 da tarde


sábado, janeiro 19, 2002  

Neste dia chuvoso caíu bem este pensamento do Ivo da Nazaré. Tenho a sensação de que existe no nosso círculo de amizades muitos com veia poética. Tenho muitas vezes pensado em organizar na Igreja uma mostra de poesia, que acompanhada por fotografia, desenho ou pintura constituiria uma boa montra das qualidades e talentos artísticos dos membros da Igreja. O tempo é pouco para tal empreitada, mas quem sabe se um dia não organizamos um grupo de trabalho entre estacas da Igreja para este propósito. A cultura liga com religião.

posted by Miguel | 9:17 da manhã
 

"A vida é tão sómente uma brisa leve
Que sopra por entre bosques de laranjeiras

Doces perfumes que se sentem no olhar"

Refresco
Ivo da Nazaré in "Fragmentos"

posted by Luis | 5:40 da manhã


sexta-feira, janeiro 18, 2002  

Mais uma maneira de comunicar e trocar ideias. A grande vantagem é que os comentários são automáticamente publicados na página da Internet sem termos que ter conhecimentos de HTML (linguagem da Internet). E cada pessoa pode criar a sua própria página sobre o tema que quiser. Dizem os entendidos que isto é o futuro do ICQ, Instant Messaging ou message boards.

posted by Miguel | 10:55 da tarde
 

Miguel explica-me para que é isto?

posted by Am�rico | 10:48 da tarde
 

O género

A minha palavra favorita é género. É uma palavra deliciosa, que nunca mais acaba. Adoro dizer que alguém "não faz o meu género". Adoro palavras como jaez, estirpe, têmpera, feição e sobretudo laia. Em português pode ser-se do mesmo género sem ser da mesma laia. Adoro ver alguém a "fazer género". Rio-me sempre que leio, em tomos maçudos de crítica cinematográfica norte-americana, que o film noir e o western são "genres". Quando alguém é género pimba, adoro dizer "Ela é muito vamp, mas não faz o meu genre". Acho deliciosa uma língua em que se possa dizer: - O Jorge é género quê? - Género masculino".
Com a palavra género entra-se na maravilha de incomunicação e de indefinição que é a língua portuguesa. Com ela é possível fazer milagres, como sejam obter respostas que não só não nos esclarecem, como nos deixam ainda mais ignorantes e curiosos do que antes. Por exemplo, alguém pergunta-nos: "O novo professor de matemática é giro?" e nós respondemos. "Dentro do género".
Se nem sequer respondêssemos, o outro ficaria na mesma. Assim ainda fica pior. Antes, só não sabia se ele era giro. Agora, também não sabe qual é o género.
"Dentro do género" é uma maravilha. Só não compreendo por que é que os nossos políticos não a usam mais. Em vez de nos moerem o juízo com palavras compridas que não adiantam nem atrasam, esfarelando-se em frases insuportáveis, poderiam apenas responder: "Dentro do género".
Quando alguém pergunta se este Verão vai haver alguma campanha contra os incêndios, em vez de responderem, como é costume, "Em princípio está previsto um plano que contempla uma série de medidas, visando um determinado conjunto de objectivos, que serão atempadamente implementados quando as condições estiverem reunidas", bastaria dizerem: "Dentro do género". Melhor do que isso, só dizer a verdade: "Não".
Eis uma lista de perguntas frequentes que podem ser respondidas com "Dentro do género", com um efeito devastador:
- Achas que o Cavaco é um bom primeiro-ministro?
- O bacalhau está bom?
- Dás-te bem com os teus pais?
- O filme presta para alguma coisa?
- És feliz…?
- A casa deles é bonita?
- Isso dá dinheiro?
A maneira ideal de responder é apanhar o verbo e pô-lo na afirmativa, para dar uma falsa sensação de segurança ao nosso interlocutor, e depois afinfar-lhe o DDG em cima. Exemplo:
- O teu filho é esperto?
- É… Dentro do género.
Adoro o subjectivismo subjacente. Quando se responde "Dentro do género" está a dizer-se, com três palavrinhas apenas: "Ouve lá, tudo é relativo e o meu gosto pode ser diferente do teu… No fundo, tudo depende do contexto e do ponto de vista, da experiência que um gajo teve em pequenino…".
A língua portuguesa presta-se a este tipo de incomunicação. O meu exemplo predilecto é um clássico da nossa língua: "Se queres que te diga, não sei".
Pergunta-se a alguém: "Ouve lá, já chegou o barco?". Ele, em vez de responder só "Não sei", dá esta belíssima volta ao bilhar grande que é arrancar com um "Se queres que te diga…".
É uma crueldade, porque quando se ouve "Se queres que te diga", espera-se receber alguma coisa. Fazer seguir a promessa dessas palavras de "Não sei" é perverso. Seria como dizer "Se queres mesmo que te dê um cigarro, não dou". Ou: "Se queres que eu vá contigo ao médico, não vou".
A única maneira de nos defendermos desta estocada verbal é não deixar que o nosso interlocutor chegue ao fim. Por exemplo:
- Desculpe, sabe onde fica a avenida Óscar Monteiro Torres?
- Se quer que lhe diga…
- Não, não quero. Deixe lá. Eu não queria saber. Fiz a pergunta só para o irritar.
Portugal é um paraíso para quem gosta deste tipo de trocas verbais. Às vezes, para me inspirar, passo umas horas a vaguear pelas ruas de Lisboa a perguntar às mais variadas pessoas onde é que ficam certas ruas.
Já tive oportunidade de falar no clássico "Assim de repente não estou a ver…", que leva a crer que bastaria darmos algum tempo ao homem para ele nos elucidar. Na altura, porém, ainda não sabia a resposta correcta, que passo a revelar:
- Desculpe, diz-me por favor onde é a rua Marinho Peres?
- Marinho quê?
- Marinho Peres.
- Marinho Peres? Não, assim de repente não estou a ver.
- Não faz mal. Eu não tenho pressa.
Outra resposta fabulosa remete para um passado feliz, já perdido, como só nós, Portugueses, sabemos fazer: é o "já soube…". É muito irritante.
- Boa tarde. Não se importa de me dizer onde fica a travessa do Fala-Só?
Travessa do Fala-Só, travessa do Fala-Só… (Repete várias vezes com a cabeça, como quem está a confirmar que a morada existe e que nós não somos loucos, e depois o sim transforma-se em não e vem, em tom saudoso, de quem recorda com carinho a tetina da falecida mãe:) Eu já soube…
Não há nada a fazer. Pessoalmente, gosto de ripostar, perguntando em jeito causídico: "Lembra-se mais ou menos quando?". Se a pessoa que me diz "eu já soube…" é relativamente nova, eu faço cara de quem está com pena dela e digo "Quando era novo…"
Há outra resposta frequente que não deve existir em mais nenhuma parte do Mundo. Muito antes de Wittgenstein, já nós, Portugueses, dizíamos em plena rua, caso alguém nos pedisse ajuda para localizar a rua do Passadiço: - Rua do Passadiço, eu estou a ver o nome…
Depois deste maravilhosa visão, ao pé da qual as de Santa Teresa de Ávila não valem um charuto, é costume rematar com o seguinte esclarecimento: - Não estou é a associar ao sítio…
É fácil contrariar este golpe. Por exemplo: "Boa tarde. Diz-me onde fica a Leitaria Saudade?" - "Leitaria Saudade? Ai! Eu estou a ver o nome…" - "Eu também!"
Nós, Portugueses, odiamos dizer não, mas de vez em quando lá tem de ser. O que somos fisicamente incapazes de dizer é não sei. Seja em orais ou na rua, na televisão ou em família, consideramos vergonhoso confessar que não sabemos. A ignorância tipicamente portuguesa é dizer não sei.
Se somos forçados a admitir "não sei", nunca nos coibimos de acrescentar umas palavrinhas insultuosas acerca do assunto em questão, para não se pensar que somos parvos. Por exemplo:
- Quem escreveu Os Lusíadas?
- Eu não fui.
- Não sejas parvo. É um escritor famoso.
- Sei lá! Não sei nem me interessa.
Todos os Portugueses têm a vaidade de ignorar somente o que não lhes interessa. Em Portugal, até o Menino Jesus, que é suposto interessar-se por tudo e por todos, tem vastas áreas que não o fascinam. Escusado será dizer que o que não interessa ao Menino Jesus também não interessa a mais ninguém.
Um amigo do meu Pai guarda em casa um documento típico da nossa maneira de ser. Um biólogo marinho, especializado em crustáceos, recebeu uma cópia da nova Lei da Zona Económica Exclusiva, juntamente com uma carta em que se solicitava aos funcionários que fizessem os comentários que quisessem. Passados três meses, entregou ao director-geral uma carta em que dizia: "Não sendo jurista, não tenho competência para me pronunciar acerca deste documento. Posto isto, não posso deixar de tecer algumas considerações…" Seguia junto com a carta um calhamaço com mais de trezentas páginas recheado de asneiras.
Na língua portuguesa, posto isto não quer dizer "agora que já levámos isto em conta…". Significa "Mas que se lixe!". O nosso amigo biólogo, que se deu ao trabalho de escrever um livro acerca de um assunto que ignorava por completo, diz "Eu não sou jurista, sou biólogo. Mas que se lixe! Aqui vai disto!". O que é mais engraçado é que é possível imaginar que o calhamaço, apesar de não acertar uma, é bem feito "dentro do género", isto é, dentro do género raro que é biólogos a escrever acerca de direito marítimo.
Gostamos é de falar. Calados é que não ficamos. A indefinição e a incomunicação tagarelas são a nossa especialidade. Dentro do género é a pérola das pérolas, mas há outras expressões deliciosas que se dizem sem se dizer nada, parecendo que alguma coisa está a ser dita. Pergunta-se: "Por que é que os táxis têm uma luz verde quando estão ocupados e uma luz vermelha quando estão vazios? E por que é que vão passar a ser beges?". E alguém responde: "Vá lá alguém saber porquê!" Imagina-se que "Vá lá alguém saber porquê!" é uma espécie de ordem dada por um chefe de esquadra a um grupo de polícias, género "Ó Matos, vai lá tu. Vais no Toyota e perguntas lá aos gajos por que é que aquilo é assim".
Quando se diz "Vá lá alguém saber porquê!", estou sempre à espera que saia alguém disparado da sala, de lupa na mão. Mas outras respostas merecem ser registadas. Um clássico é o "É conforme" e a sua variante "Tem dias". Pergunta-se se alguém, que esteve doente, está melhor. Em vez de se saber se está ou não a recuperar, fica-se a saber que "tem dias" ou que "é conforme". Quantos dias? com que espacejamento? Conforme o quê?
Em Portugal e em português perguntar não ofende, mas também não serve para nada. Em que outra língua faz um mínimo de sentido esta troca?
- Que tal a tua nova secretária?
- Ó pá, se queres que te diga, não sei. É conforme. Tem dias.
- É gira?
- É, dentro do género…
- É género quê?
- Ó pá, é género… secretária… o que é que queres que te diga?

Miguel Esteves Cardoso in "Explicações de Português" (Assírio & Alvim)

posted by Miguel | 10:20 da tarde


quinta-feira, janeiro 17, 2002  

Procure primeiro compreender e depois ser compreendido. As pessoas não escutam com a intenção de entender, mas de responder. Filtram tudo pelos próprios paradigmas, lendo sua autobiografia na vida dos outros. - Stephen R. Covey "The seven habits of highly effective people" (Simon & Schuster)

posted by Miguel | 8:47 da tarde
 

Um lugar para a reflexão aberto para todos os interessados em edificar a alma. Pensamentos, citações, ideias, argumentos... edificantes para a alma... são bem vindos!

posted by Miguel | 7:51 da tarde
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